Anthero, Areia & Água

Editeur : Assírio & Alvim
Nombre de pages : 104
Date de parution : 2010
Langue : portugaise
ISBN : 9789723714937
Prix :

17,00

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Description :

Como todos acabamos, acabaste.
Mas não acabaste como quase todos acabamos.
Sentaste-te num banco de jardim,
Separado pelo mar,
Separado de ti, separado de separações
Que te obrigassem a unir
Os ossos redimidos, os músculos mentais
Desse palácio de ideias, no dizer de Sérgio,
Que durante tanto tempo construíste

E disparaste dois tiros.

Na boca,
Exactamente,
Sem qualquer espécie de retórica.
[…]

Anthero, Areia & Água, de Armando Silva Carvalho, foi o livro merecedor do prémio Teixeira de Pascoaes, atribuído pelo Município de Amarante.
Não é a primeira vez que o poeta expressa o seu tributo a poetas que enformam, quase sempre por meio de um processo de assimilação metamórfico, a tessitura da sua própria poesia. Em 1981, Armando Silva Carvalho publicara O sentimento de um Acidental, com uma reformulação dos valores de Cesário, à luz irónica da sua poética. A cidade modernizada e simultaneamente decadente é olhada, nesse breve livro de então, sob a intensidade, por vezes satírica, de um «lirismo espesso», para utilizar a expressão de José Manuel Vasconcelos, que prefacia O que foi passado a limpo, recolha de toda a poesia de Silva Carvalho até 2005.
Mas em Anthero, Areia & Água, a homenagem faz-se de um modo manifestamente diverso. O sujeito poético que agora se ouve é uma fusão de duas vozes que, saliente-se, jamais se queda em mimetismo, ou em qualquer tipo de pastiche, recuperando a solenidade romântica do tom anteriano, desse «ilhéu descentrado em maresias», a partir, no entanto, do ímpeto irónico da imagética de Silva Carvalho, revestida, aqui, talvez, de uma mais forte ressonância lírica.
A obra abre com um poema belíssimo publicado no volume da revista Colóquio Letras, inteiramente dedicado ao autor de Odes Modernas, e que surge destacado, em itálico, funcionando como um mote, quase uma divisa. E, numa nota final, mesmo a fechar a colectânea é também assumida, a génese dos poemas, à guisa de explicação: «Textos escritos durante a leitura das Cartas de Antero, organização, prefácio e notas de Ana Maria Almeida Martins, Imprensa Nacional - Casa da Moeda.». Desta maneira, os poemas que adoptam a voz poética de Antero como sujeito vêm contrastar com a segunda pessoa a quem o poema de abertura se dirige, ao justificar o trilho percorrido pelo texto: «Na longa sucessão dos anos, / Há muitos que de ti se vão aproximando/Por dever do ofício, por exigência histórica, / Ou por outra natureza qualquer que não convém/ Ou vem agora a lume.// Por mim, pois sou eu que estou aqui/Por trás da escrita, /Queria perceber – entre a leitura dos textos/E o que a invenção do tempo me faz chegar às mãos/ que ainda estremecem-- / A estranha sedução que me provoca/ O que ficou do corpo, que dizem que foi teu (…).»
Um livro que flui numa entrega «total e mentalmente a Anthero», numa profunda compreensão da sua poesia, da sua figura. Talvez possamos dizer tratar-se do mais diverso dos livros de Armando Silva Carvalho, a fazer recordar os meandros nem sempre facilmente verificáveis por que se formam as várias vozes que falam num só escritor. Afinal, como escreveu uma vez o poeta: «Ninguém é filho do poema universal/ Nem pai/ do seu rebanho de versos. Rita Taborda Duarte (leitur@gulbenkian, 2011)

 


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